O silêncio foi interrompido por um grito do Dr. Xavier Richelieu: “SALDANHA!” E o criado Saldanha despertou de seus sonos intranqüilos e correu em direção ao patrão. “Pois não, doutor Xavier”. O jornalista virou-se, notou que o criado Saldanha, um negro bem alto, no estilo que mais tarde ficaria conhecido como “Gregório Fortunato”, ainda bocejava. O jornalista nem precisou perguntar. O criado estivera dormindo, e dormindo continuaria se o grito de derrota não o houvesse acordado.
“Saldanha, prepare uma nota promissória.”
“Mas senhor…”
“Agora.”
“Sim, senhor.”
Em um tom infinitamente mais simpático, o jornalista se dirigiu a João Maquibeto. Sua língua ainda amolecida pelo consumo excessivo de whisky. Apresentou qualquer justificativa e pediu para que João Maquibeto o acompanhasse ao convés. Uma estória sem pé nem cabeça sobre os negócios, que a mente igualmente entorpecida de João Maquibeto também não compreendia muito bem, terminou com a frase: “E portanto eu vou comprar um jornal no Amazonas, mas estou desprevinido aqui e preciso que o senhor me empreste algum para prosseguirmos com a partida. Tenho certeza que minha sorte vai mudar.”
O criado Saldanha voltava apressado da cabine do patrão e se apressou ainda mais quando o viu conversando à parte com João Maquibeto. “Com licença, senhor deputado, o meu patrão não está em condições”. E retirou rapidamente o Dr. Xavier Richelieu, que esbravejada, agressivo como um bêbado. João Maquibeto se limitara a concordar com tudo e permanecera em silêncio, observando o desenrolar da comédia. Rapidamente, o jornalista saíra do seu campo de visão. Retornando à mesa de jogo, João Maquibeto contou as altas cifras que ganhara. Despediu-se e voltou para seu quarto. Odete estava acordando.
“Isso são horas?” disse enquanto se levantava, alegrando-se por não precisar dividir o leito com um homem fedendo a charutos e bebidas.
“Depenei o jornalista, mulher”, disse João Maquibeto com um grande bocejo. “Está dando tudo certo…”
E a viagem terminou sem que João Maquibeto voltasse a encontrar o Dr. Xavier Richelieu. O criado Saldanha apresentou desculpas pelo comportamento um tanto inadequado do patrão e perguntou se havia alguma dívida a ser quitada. João Maquibeto esclareceu que tudo o que fora apostado fora igualmente pago. O criado Saldanha despediu-se, mas João Maquibeto sabia que não tardaria a revê-lo.
No Rio de Janeiro, João Maquibeto instalou-se em uma bela casa na Glória, que havia sido providenciada por aliados políticos e que fora morada de um antigo deputado amazonense, já falecido. Uma semana antes de sua posse, João Maquibeto já estava perfeitamente acostumado ao seu novo castelo. Comentava eventualmente, para o horror da esposa, que desejava encher a casa de crianças.
Em suas atividades políticas, João Maquibeto tratou de ir se aproximando dos líderes governistas. Ele, governista que era, que fora e que haveria de sempre ser, estava disposto se tornar amigo de todos. O líder do governo, um baiano, atendia João Maquibeto com muita generosidade, mas não se preocupava em excesso com um jovem deputado iniciante vindo de um estado falido e isolado, assim, João Maquibeto pouco tinha a fazer. Pôs-se, portanto, a escrever. Mandava cartas periódicas para Manaus, detalhando com seu consagrado estilo rês-do-chão, as aventuras políticas que não-vivia.
Além de escrever, João Maquibeto discursava. Proferia seus discursos nos dias menos concorridos e falava por horas, para dois ou três deputados. Com o tempo, porém, mais e mais deputados passaram a atentar para seu discurso. Alguns, vivamente impressionandos com sua incrível capacidade de ser totalmente superficial, impreciso, equivocado, delirante e grandiloqüente. Outros, absolutamente fascinados pela capacidade retórica daquele jovem líder. Os medíocres do congresso iam pouco a pouco encontrando em João Maquibeto um ponto de referência. Deputados dos rincões mais atrasados do país se uniam em torno de sua figura que, sejamos francos, era extremamente simpática.
O movimento involuntário de “união de todos os atrasos” sob o patronato de João Maquibeto chamou a atenção do Líder do Governo. Logo, João Maquibeto liderava – semiconscientemente – uma ala que os políticos definiam como os “Abre-Alas”, em um infame trocadilho com a velha marcinha de Chiquinha Gonzaga, porque esses deputados queriam passar e queriam espaço na política nacional.
O grupo dos Abre-Alas aos poucos se articulava, de tal maneira que chamou a atenção da imprensa carioca. Dr. Xavier Richelieu escreveu um furioso editorial em seu O DIA DE ONTEM criticando asperamente os abre-alas em artigo oportunamente intitulado União de Todos os Atrasos contra os Progressos da Nação. João Maquibeto não era diretamente mencionado, mas o jornalista insinuava que as lideranças dos Abre Alas não sabiam que lideravam e o discurso do movimento não queria dizer nada. Um diagnóstico preciso e rigoroso. Mas melindrou João Maquibeto.
Revoltado, João Maquibeto escreveu um petardo semi-incompreesível no O Paiz, atacando diretamente o grupo empresarial Xavier Richelieu e dando a entender que certos maus hábitos iram inadequados ao ofício de jornalista. Imediatamente se acendeu uma luz vermelha na sala do Dr. Xavier Richelieu. Sua imagem não poderia sofrer máculas justamente no momento em que forçava a mão para convencer o governo a liberar a primeira concessão de rádio do país justamente para a sua almejada Rádio Tamôia.
Por conta desse artigo, um belo dia, ao chegar em seu gabinete, João Maquibeto se deparou com o criado Saldanha sentado em sua cadeira.
“Trago uma mensagem de meu patrão, senhor deputado”