O Vôo do Marimbondo – Nona Parte

7 05 2009

O silêncio foi interrompido por um grito do Dr. Xavier Richelieu: “SALDANHA!” E o criado Saldanha despertou de seus sonos intranqüilos e correu em direção ao patrão. “Pois não, doutor Xavier”. O jornalista virou-se, notou que o criado Saldanha, um negro bem alto, no estilo que mais tarde ficaria conhecido como “Gregório Fortunato”, ainda bocejava. O jornalista nem precisou perguntar. O criado estivera dormindo, e dormindo continuaria se o grito de derrota não o houvesse acordado.

“Saldanha, prepare uma nota promissória.”

“Mas senhor…”

“Agora.”

“Sim, senhor.”

Em um tom infinitamente mais simpático, o jornalista se dirigiu a João Maquibeto. Sua língua ainda amolecida pelo consumo excessivo de whisky. Apresentou qualquer justificativa e pediu para que João Maquibeto o acompanhasse ao convés. Uma estória sem pé nem cabeça sobre os negócios, que a mente igualmente entorpecida de João Maquibeto também não compreendia muito bem, terminou com a frase: “E portanto eu vou comprar um jornal no Amazonas, mas estou desprevinido aqui e preciso que o senhor me empreste algum para prosseguirmos com a partida. Tenho certeza que minha sorte vai mudar.”

O criado Saldanha voltava apressado da cabine do patrão e se apressou ainda mais quando o viu conversando à parte com João Maquibeto. “Com licença, senhor deputado, o meu patrão não está em condições”. E retirou rapidamente o Dr. Xavier Richelieu, que esbravejada, agressivo como um bêbado. João Maquibeto se limitara a concordar com tudo e permanecera em silêncio, observando o desenrolar da comédia. Rapidamente, o jornalista saíra do seu campo de visão. Retornando à mesa de jogo, João Maquibeto contou as altas cifras que ganhara. Despediu-se e voltou para seu quarto. Odete estava acordando.

“Isso são horas?” disse enquanto se levantava, alegrando-se por não precisar dividir o leito com um homem fedendo a charutos e bebidas.

“Depenei o jornalista, mulher”, disse João Maquibeto com um grande bocejo. “Está dando tudo certo…”

E a viagem terminou sem que João Maquibeto voltasse a encontrar o Dr. Xavier Richelieu. O criado Saldanha apresentou desculpas pelo comportamento um tanto inadequado do patrão e perguntou se havia alguma dívida a ser quitada. João Maquibeto esclareceu que tudo o que fora apostado fora igualmente pago. O criado Saldanha despediu-se, mas João Maquibeto sabia que não tardaria a revê-lo.

No Rio de Janeiro, João Maquibeto instalou-se em uma bela casa na Glória, que havia sido providenciada por aliados políticos e que fora morada de um antigo deputado amazonense, já falecido. Uma semana antes de sua posse, João Maquibeto já estava perfeitamente acostumado ao seu novo castelo. Comentava eventualmente, para o horror da esposa, que desejava encher a casa de crianças.

Em suas atividades políticas, João Maquibeto tratou de ir se aproximando dos líderes governistas. Ele, governista que era, que fora e que haveria de sempre ser, estava disposto se tornar amigo de todos. O líder do governo, um baiano, atendia João Maquibeto com muita generosidade, mas não se preocupava em excesso com um jovem deputado iniciante vindo de um estado falido e isolado, assim, João Maquibeto pouco tinha a fazer. Pôs-se, portanto, a escrever. Mandava cartas periódicas para Manaus, detalhando com seu consagrado estilo rês-do-chão, as aventuras políticas que não-vivia.

Além de escrever, João Maquibeto discursava. Proferia seus discursos nos dias menos concorridos e falava por horas, para dois ou três deputados. Com o tempo, porém, mais e mais deputados passaram a atentar para seu discurso. Alguns, vivamente impressionandos com sua incrível capacidade de ser totalmente superficial, impreciso, equivocado, delirante e grandiloqüente. Outros, absolutamente fascinados pela capacidade retórica daquele jovem líder. Os medíocres do congresso iam pouco a pouco encontrando em João Maquibeto um ponto de referência. Deputados dos rincões mais atrasados do país se uniam em torno de sua figura que, sejamos francos, era extremamente simpática.

O movimento involuntário de “união de todos os atrasos” sob o patronato de João Maquibeto chamou a atenção do Líder do Governo. Logo, João Maquibeto liderava – semiconscientemente – uma ala que os políticos definiam como os “Abre-Alas”, em um infame trocadilho com a velha marcinha de Chiquinha Gonzaga, porque esses deputados queriam passar e queriam espaço na política nacional.

O grupo dos Abre-Alas aos poucos se articulava, de tal maneira que chamou a atenção da imprensa carioca. Dr. Xavier Richelieu escreveu um furioso editorial em seu O DIA DE ONTEM criticando asperamente os abre-alas em artigo oportunamente intitulado União de Todos os Atrasos contra os Progressos da Nação. João Maquibeto não era diretamente mencionado, mas o jornalista insinuava que as lideranças dos Abre Alas não sabiam que lideravam e o discurso do movimento não queria dizer nada. Um diagnóstico preciso e rigoroso. Mas melindrou João Maquibeto.

Revoltado, João Maquibeto escreveu um petardo semi-incompreesível no O Paiz, atacando diretamente o grupo empresarial Xavier Richelieu e dando a entender que certos maus hábitos iram inadequados ao ofício de jornalista. Imediatamente se acendeu uma luz vermelha na sala do Dr. Xavier Richelieu. Sua imagem não poderia sofrer máculas justamente no momento em que forçava a mão para convencer o governo a liberar a primeira concessão de rádio do país justamente para a sua almejada Rádio Tamôia.

Por conta desse artigo, um belo dia, ao chegar em seu gabinete, João Maquibeto se deparou com o criado Saldanha sentado em sua cadeira.

“Trago uma mensagem de meu patrão, senhor deputado”





O Vôo do Marimbondo – Oitava Parte

5 05 2009

Descoberta a presença do importante jornalista em seu vapor, João Maquibeto fez o favor de deixar seus cadernos de rascunhos devidamente fechados e guardados na cabine. Odete garantiu maior segurança, escondendo furtivamente os cadernos dentro do baú de coisas valiosas que levavam trancado e oculto dentro da cabine. A esposa lia silenciosamente um certo Marcel Proust, escritor de muito prestígio em França, dizendo ao marido tratar-se de livros sobre educação da família. João Maquibeto, como de hábito, não lia nada. Folheara uma edição meio estragada de Dom Casmurro (“tão previsível!”), mas sua dedicação era para com o jornalista.

João Maquibeto tomara todas as providências para assegurar que a viagem ao Rio de Janeiro ofereceria ao Dr. Xavier Richelieu uma overdose de João Maquibeto tão cavalar e deselegante que, pensava João Maquibeto, o jornalista já não saberia raciocinar politicamente sem levar em conta seu grande amigo amazonense. De sua parte, o Dr. Xavier Richelieu sabia exatamente como lidar com essa “variedade de cretino”. Homem acostumado à bajulação dos políticos de nenhuma expressão, Dr. Xavier Richelieu fingia ouví-los por horas, enquanto maquinava em sua cabeça idéias para editoriais futuros. Em caso de excessos, seu criado Saldanha sabia dispensar os inconvenientes com a doçura e força que merecesse o impostor.

João Maquibeto se informou com alguns funcionários do vapor e já sabia a que horas o jornalista saía para fazer suas refeições. Invariavelmente, João Maquibeto providenciava uma maneira de ver e de ser visto. Geralmente chegava instantes depois do Dr. Xavier Richelieu e inventava uma desculpara para sentar-se com ele: “Odete acordou cedo”, “Odete acordou tarde”. “Odete sente-se mal”, “Não acha horrível desjejuar sozinho?” e por aí afora. Complacente, o jornalista tolerava. Sabia que cedo ou tarde João Maquibeto poderia lhe ser útil. Ademais, voltava sozinho para o Rio e pelo menos poderia rir um pouco.

E assim se passaram vários dias. João Maquibeto expondo com sua já dilatamente exemplificada eloqüência seus delírios sobre uma revolução amazônica que transformaria a região. Ferrovias, usinas de carvão, monocultura de maçã e outras parvoíces eram apresentadas com os faiscantes olhos de João Maquibeto dando a tudo uma grandeza de noite de São João no nordeste. O jornalista, semi-estático, respondia com “É mesmo?”, ou “Com certeza! Fale mais!”, ou com “Não tenho opinião. Qual é a sua?” e com isso ia dando corda para João Maquibeto se enrolar ainda mais.

De maneira geral, Dr. Xavier Richelieu ia pouco a pouco simpatizando com João Maquibeto. Seu característico estilo brejeiro e sua pretensão malandra totalmente incompatível com a realidade davam-lhe um aspecto patético que muito divertia o jornalista. Confidenciara ao criado Saldanha que escreveria um romance com um personagem que caricaturasse ainda mais aquela caricatura de político que era João Maquibeto.

Sem sequer imaginar que era motivo de ridículo, João Maquibeto vislumbrava uma maneira de manipular a imprensa em seu benefício, no Rio de Janeiro, mas também especialmente no Amazonas. Passou a falar de negócios com o jornalista. Explicou a situação dos jornais, a circulação que tinham, o sucesso de sua coluna diária (mais de três mil leitores, metade deles em Manaus!) e as possibilidades de lucro que poderiam auferir se fizessem uma sociedade para comprar um noticioso no estado.

O Dr. Xavier Richelieu ouvia sem se comprometer, embora não chegasse a descartar a idéia. Ouviu João Maquibeto dizer que chamaria seu jornal de O MARIMBONDO e teria como linha editorial zumbir nas orelhas de seus inimigos políticos. A proposta causou riso no velho jornalista fluminense, mas pouco a pouco ele começou a desconfiar que talvez fosse uma boa idéia. Tinha seus motivos, mas não eram os que João Maquibeto acreditava ser.

Uma noite, o vapor já se aproximando do Cabo Frio, João Maquibeto decidiu se unir hóspedes que gastavam dinheiro na mesa de carteado. Naquela noite, o jogo era pôquer. João Maquibeto nunca soube jogar muito bem, tendo perdido um bom dinheiro no pano verde durante seus tempos de estudante, mas, instado pelo Dr. Xavier Richelieu, acabou concordando com a experiência.

A jogatina se desenrolou pela noite adentro. João Maquibeto jogava cautelosamente e se mantivera no jogo, testemunhando a eliminação de quatro cavalheiros. Restavam outros quatro: ele, o jornalista, um fazendeiro baiano e um médico também da Bahia. O excesso de álcool, o avançado da hora e a tensão intrínseca à combinação de jogo, dinheiro e falta de escrúpulos excitava os contendores que passaram a apostar cada vez mais dinheiro. A fumaça dos charutos já causava uma névoa incômoda até mesmo ao experimentado crupiê.

Nesse momento, a sorte, essa vadia, sorriu para João Maquibeto.

Em primeiro lugar, João Maquibeto percebeu que o fazendeiro baiano e o médico estavam trabalhando juntos para depenar o jornalista. Com o criado Saldanha adormecido em uma cadeira e uma garrafa de whisky quase inteira na garganta, o jornalista já variava e se tornara vulnerável às fatais desatenções, que abastecia colocando mais dinheiro na mesa. A combinação extremamente favorável de cartas que tinha na mão fez João Maquibeto se arriscar, com o intuito de forçar todos a apostarem tudo e se sair melhor.

“Cavalheiros, estou muito cansado e não quero entrar em minha cabine quando minha mulher já estiver acordando. Sugiro que aceleremos o final da partida. All in“, disse João Maquibeto, colocando todo o seu dinheiro disponível sobre a mesa. O fazendeiro baiano cobriu, o médico também. O jornalista, que já perdera muito dinheiro, tinha muito menos do que João Maquibeto, mas também apostou tudo. O alto custo da rodada deixara os baianos praticamente sem nada e, como João Maquibeto anunciara que era sua última rodada, enquanto o Dr. Xavier Richelieu tinha menos ainda para arriscar, estava claro que aquele seria o último lance da noite.

Uma virada de cartas, a presença marcante de um ás de espadas deixando todos boquiabertos na mesa. Silêncio. João Maquibeto havia quebrado o jornalista.





O Vôo do Marimbondo – Sétima Parte

2 05 2009

Confortável com as perspectivas oferecidas pelo recém-adquirido cargo de deputado, João Maquibeto esbanjou em sua viagem para o Rio de Janeiro. Embarcou no vapor mais chique e caro disponível naquela época, que faria poucas paradas e prometia chegar em tempo recorde à capital federal. Com ele, iam Odete, a mobília, a biblioteca e um baú trancado onde pusera todas as coisas de valor. A longa viagem era a ocasião ideal para João Maquibeto prosseguir em suas ambições literárias: decidiu escrever um diário de viagem.

Sentado sozinho em sua cabine (Odete tomara a prudente decisão de fazer amigas à bordo), João Maquibeto demonstrava o velho ditado de que o papel aceita tudo. Primeiro, incomodado com a falta de acontecimentos na embarcação, cogitou escrever histórias fantasiosas sobre sereias, monstros marinhos e piratas amazônicos. Infelizmente não mudou de idéia.

“Querido diário”, começava João Maquibeto com os olhos brilhando, sua criatividade galopando como asno selvagem, “as coisas não vão bem, não! Hoje de manhã, fomos cercados por índios piratas! O barco em que viajo se separou demais da escoltada gentilmente oferecida pela Marinha de Guerra e ficamos totalmente vulneráveis aos terríveis índios piratas! Fazendo uso de suas velocíssimas canoas à vela, dezenas de bucaneiros de água doce cercaram nossa briosa embarcação e tentaram levar tudo o o que havia de valor!” Em prosseguia descrevendo um horripilante ataque de corsários armados de arco e flecha, rendendo soldados armados com pistolas, marinheiros hirsutos e a captura do comandante, para ser servido como prato principal aos índios que, além de piratas, eram obviamente antropófagos.

João Maquibeto sentia a necessidade irrefreável de conferir grandeza heróica a si mesmo nessas lamentáveis linhas em que devaneava sobre uma viagem absurda. Para solucionar a tensão dos piratas, o único herói disponível era João Maquibeto. “Não! Não eu! Se vós sois o cobardes que não enfrentam esses índios piratas canibais e antropófagos eu me recuso a aceitar isto!” avançava João Maquibeto, derrubando tudo.”E então, querido diário, tomei de minha espada…” João Maquibeto jamais em sua vida encostara a mão em uma espada, muito menos em uma que fosse sua. “… e com minha espada, ataquei os bucaneiros! Treinado na guerra e na lida da terra amazõnica, como vocês sabem, eu tinha plenas condições habilitadas de desviar de todas as saraivadas que me desferiam os gentis!” Guerra e trabalho braçal, duas coisas desconhecidas na existência de João Maquibeto, juntamente com o vocábulo “gentio”.

No final da aventura, João Maquibeto salvava o capitão que já estava dentro de um caldeirão para ser cozido. Um detalhe delicioso é o fato de que Maquibeto dizia ter sido transportado do navio até os “covis dos gentis” por um boto cor-de-rosa inteligente, como golfinhos de antigas lendas gregas. E transcrevia uma longa conversa sobre a vida na terra e a vida no rio travada entre ele, João Maquibeto, espada em punho, remotamente lembrando um Duque de Caxias aquático, e o boto cor-de-rosa falante. Salvo o capitão, ambos eram levados de volta ao vapor por uma “manada” de botos. Oportunamente, a marinha brasileira se aproximara e tomara ciência da informação, apenas para concluir a história com algo como “E assim ganhei a medalha de honra ao mérito militar, segunda classe. O brigadeiro [sic] que comandava a gavota da marinha brasileira [possivelmente "corveta"] se despediu afirmando que seria bom se todos os deputados do Brasil tivessem a presença de espírito que mui modestamente me tomou naquele momento de terror e tensão”.

Páginas e mais páginas do diário foram recheadas com aventuras amorosas de João Maquibeto com as sereias do rio Araguaia, a caçada às ariranhas gigantes cuspidoras de fogo, o duelo com a célebra Cobra Grande, o encontro com o Boitatá e tantas outras personagens lendárias de todo o Brasil e de fora dele. “Foi então que percebi que diante de mim estava o gigante Pantagruel, diretamente vindo de Paris….” Aos pouco ficou claro que João Maquibeto queria fazer “Os Doze Trabalhos de João Maquibeto”.

Quando o vapor já percorria a costa brasileira, João Maquibeto deu por terminado o duodécimo trabalho, em que descia ao fundo do rio para resgatar o Eldorado, um índio feito de ouro que havia sido aprisionado ao leito do rio por Francisco de Orellana, nosso heróico autor ponderou sobre que novas aventuras poderia viver. Lamentou estar casado, pois Odete não teria o mesmo apelo de uma Julieta, uma Andrômeda, uma Cassandra, uma Helena de Tróia. Meditava acerca da viabilidade de uma Iracema de Tróia (ou Helena do Ceará) quando se sentiu estranhamente arrepiado. Na janela da cabine, uma luz fraca oscilava.

João Maquibeto sobressaltou-se. Seria um vagalume, ou seria o retorno daquela misteriosa criatura que tanto o impressionara? Uma súbita dor na nuca o paralisou por alguns instantes. “Lá vou eu de novo” pensou, enquanto procurava não desfalecer. Olhando fixamente para o bruxuleante luzeiro visível pela janela, João Maquibeto rapidamente se recuperou. Tomou forças, tomou um gole de coragem, levantou-se e avançou até a janela. O luzeiro já não estava ali. João Maquibeto abriu a porta da cabine e ganhou a varanda de circulação do vapor. Recostado na balaustrada, um homem permanecia em silêncio, de costas para João Maquibeto, mirando o mar enquanto fumava um grande charuto.

Ouvindo o barulho da porta se abrindo, o personagem virou-se para João Maquibeto. Trajado com suma elegância, apresentando uma barba branca bem aparada e uma calva pronunciada, o cavalheiro tirou da boca o charuto e demonstrou seu forte sotaque fluminense:

“Incomodo?”

“De maneira alguma, apenas tive a impressão de ter visto um vagalume na janela de minha cabine. Não quis assustá-lo”.

João Maquibeto nunca havia reparado naquele senhor. Ele provavelmente embarcara na escala que fizeram em Fortaleza. Por sua distinção e aspecto milionário, João Maquibeto lembrou-se de sua condição de político e escritor, e decidiu bajular.

“Permita que eu me apresente. Sou João Maquibeto Ferreira de Castro, deputado federal pelo Amazonas, a caminho do Rio de Janeiro para tomar posse. E vossa senhoria?”

Diante de João Maquibeto se encontrava o poderosíssimo Dr. Xavier Richelieu, dono dos jornais de maior circulação no Rio de Janeiro (O Dia de Ontem) e em São Paulo (Tempo Paulistano) e que adquirira agora uma estação de rádio naquela capital (Rádio Tamoia), tornando-se um importante concentrador de mídia e um dos homens mais respeitados do país. Ganha notoriedade principalmente pelo suposto envolvimento no assassinato do senador Pinheiro Machado em 1917 e pelo trato sensacionalista dado à cobertura política, carregando nas tintas fortes de quem não lhe concedesse certas facilidades. O jornalista ofereceu a mão direita a João Maquibeto, apresentando-se:

“Francisco Xavier Richelieu de Lima Barbosa, mas acho que o senhor já sabia disso…”





Pausa Poética 2

8 03 2009

POEMA RETIRADO DE UMA NOTÍCIA DE JORNAL

Para Bandeira

http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u530415.shtml

Sergey Tuganov era mecânico e confiava no Viagra para garantir sua fama de maior garanhão daquele [ lado de Moscou
Uma noite ele apostou com duas senhoritas que resistiria uma maratona sexual de 12 horas
Lambeu
Mordeu
Chupou
No final ganhou seis mil dólares e morreu enfartado





Crime e Castigo, Pecado e Penitência

7 03 2009

Interrompemos nossa programação e as aventuras de João Maquibeto para falar um pouco sobre o Caso da Excomunhão.

ERA UMA VEZ um selvagem que violentava as enteadas. Uma delas, contando nove anos de idade, ficou grávida de gêmeos. Por sua idade e pelo contexto bárbaro em que se deu a inseminação, a gravidez foi considerada de alto risco. A Cidade dos Homens decidiu realizar um aborto preventivo na menina, o que ocorreu recentemente.

Tudo isso ocorreu em Pernambuco. Responsável pela circunscrição eclesiástica, o Arcebispo de Olinda e Recife tomou a medida canônica cabível: proclamou a excomunhão automática da equipe médica e da mãe da menina, nos termos do Código de Direito Canônico. Foi o que bastou para que os teólogos de final de semana saíssem de suas sacristias profanas para condenar a atitude do Arcebispo.

Na opinião de doutores da Igreja como Luiz Inácio Lula da Silva, José Gomes Temporão e Carlos Minc, entre outros luminares da teologia cristã, o arcebispo está errado em fazer cumprir o Código Canônico. Assim se pronunciaram:

Lula: “Não é possível permitir que uma menina estuprada pelo padrasto tenha esse filho. Até porque a menina que corria risco de morte. Nesse aspecto, a medicina está mais correta que a igreja”

Temporão: “Está na lei que, em caso de risco de vida da gestante ou gravidez resultado de estupro, o aborto pode ser permitido. O resto, é opinião da Igreja. Estou impactado.”

Minc: “Quero falar como cidadão: estou muito revoltado. Essa menina foi violentada, já teve um trauma grande. A Igreja, em vez de ajudar, criou uma questão a mais. É a criminalização da vítima”

Sou tão téologo quanto Lula, Temporão ou Minc, podem dizer os favoráveis ao aborto. De fato. Mas se eles podem falar suas asneiras por aí, eu tenho direito de publicar minhas asneiras aqui.

Em primeiro lugar, é preciso deixar claro que o arcebispo não excomunhou ninguém. Incorreram em excomunhão automática os católicos envolvidos no procedimento de interrupção da gravidez da menina. O Código de Direito Canônico aponta em seu cânone 1398: Qui abortum procurat, effectu secuto, in excommunicationem latae sententiae incurrit (quem procura um aborto, se ele é realizado, incorre em excomunhão “automática”). A Lei Brasileira, por sua vez, estabelece no Código Penal, Art. 128, que “não se pune o aborto praticado por médico: (i) [aborto necessário] se não há outro meio de salvar a vida da gestante; (ii) [aborto no caso de gravidez resultante de estupro] se a gravidez resulta de estupro e o aborto é precedido de consentimento da gestante ou, quando incapaz, de seu representante legal”.

Ao contrário do que pensa o ministro Temporão, há uma possibilidade de NÃO PUNIR o aborto aventada pelo Art. 128, em que se enquadrava a criança molestada. Isso não quer dizer que o aborto “pode ser permitido”. Ele continua proibido, renunciando o Estado à pretensão punitiva por entender-se (i) que a vida do feto é mais frágil e depende de uma gravidez saudável para propiciar o nascimento de uma criança saudável e (ii) que a gravidez indesejada fruto de uma violência sexual pode ser um tal fardo de ordem pública e social que vale a pena o sacrifício de um inocente feto em prol da manutenção da saúde mental e emocional da sociedade (aqui se pressupõe que a mãe rejeitaria o filho e o filho rejeitado se tornaria um pária social).

Enquanto o Código Penal abre essa brecha, a lei canônica não abre. Os fetos gêmeos que a menina carregava foram abortados com base na lei penal, mas a punição aos envolvidos já estava prevista na lei canônica muitos anos antes. O estuprador não sofreu nenhuma sanção religiosa, mas foi preso, será julgado e com certeza pegará uma pena alta (seis a dez anos). Aborto é crime listado no rol de crimes contra a vida, ladeando-se com o homicídio, o induzimento ao suicídio e o infanticídio. Em todos os casos, ocorre a operação sem volta da morte (punição que o Brasil só admite para crimes de guerra). Estupro é crime listado no rol de crimes contra a liberdade sexual, ladeando-se com o atentado ao pudor (violento ou mediante fraude), a posse sexual mediante fraude e o assédio sexual.

Assim, por conta de uma proclamação de um eclesiástico, surgiu a discussão acerca da gravidade do estupro diante do aborto, como se esquecessem que o aborto é uma variação do homicídio. E como se esquecem que duas crianças foram mortas sumariamente em um procedimento cirúrgico por vontade da representante legal de sua mãe.

Alinhado com a opção pró-vida da Igreja, o arcebispo anunciou a excomunhão. Se não tivesse anunciado – haja vista a publicidade do caso – provavelmente seria punido por não cumprir sua função. Lula, Temporão e Minc o defenderiam se a Igreja o punisse por não cumprir os cânones de sua Igreja? Provavelmente diriam se tratar de um assunto interno à Igreja e o caso não teria grandes repercussões.

Como se nota cada vez mais, o católico é o único cidadão que não tem direito à liberdade religiosa. Se o caso envolvesse índios e o xamã ou pajé expulsasse a família inteira do convívio com seus pares, ONGs e antropólogos de todo o planeta clamariam para que o Brasil preservasse as culturas locais e não tentasse impôr a sua civilização. Como se trata de uma família católica, autoridades governamentais brasileiras ignoraram a liberdade religiosa, constrangendo um arcebispo por aplicar um código canônico que se desenvolveu ao longo de dois milênios por conta de uma moda de cerca de meio século.

Convém retomar a expressão Cidade dos Homens, que usei no começo desse post, para contrastá-la com a Cidade de Deus. A terminologia é agostiniana e hoje em dia serve para reforçar a distinção entre a Igreja e o Estado, evitando a submissão daquele a este. Na Cidade dos Homens, o aborto vem sendo objeto de uma campanha de gradual descriminalização. Na Cidade de Deus, é um homicídio contra crianças não-nascidas. É tão forte a indignação da Igreja com essas vítimas que o calendário eclesiástico celebra o massacre dos infantes promovido por Herodes em sua perseguição a Jesus nas primeiras partes do evangelho, no chamado dia dos Santos Inocentes (28 de dezembro). Os Santos Inocentes são os únicos santos que não chegaram a conhecer Jesus ou o evangelho em toda a hagiografia cristã, não obstante terem sido os primeiros mártires do cristiniasmo.

Na verdade, é muito fácil defender o aborto. Nenhum de nós será abortado. Qual o problema com crime que não podemos sofrer? Uma pessoa já nascida jamais será abortada. Deixa-se uma pena branda para o aborto e crava-se uma pena mais alta para crimes de que os adultos civilizados possam efetivamente ser vítimas (no Brasil, pune-se com mair rigor o indivíduo que rouba um carro e o leva para outro estado que o fazendeiro que reduz seus trabalhadores a condição análoga à de escravo). Será que valeria a pena abortar os legisladores imbecis retroativamente?

Ao contrário do aborto, o crime de estupro não está sendo objeto de uma campanha de descriminalização. Quantos de nós podemos ter as mães, filhas, irmãs, amigas, esposas, namoradas, mulheres de nosso convívio em geral, estupradas? Todos. O estado laico mantém penas severas para esse crime e não há quem ouse afirmar que a violência sexual contra a mulher deva ser descriminalizada. Isso quer dizer o estupro é mais grave que o aborto, como querem Temporão, Lula e Minc? Claro que não. Ter pena mais alta não torna um crime mais grave do que outro, do ponto de vista moral. O que separa um aborto de um homicídio, pela Cidade dos Homens, é a mesma diferença entre uma criança nascida há dois dias e um feto no nono mês de gestação: o rompimento do cordão umbilical. Se alguém mata dois bebês recém-nascidos comete um duplo homicídio qualificado pela impossibilidade de defesa da vítima e vai pegar muitos anos de cadeia.

O aborto realizado em Pernambuco é um duplo homicídio cuja pretensão punitiva o Estado não exerce por questões de ordem pública e social. Isso não o torna menos homicídio, e a Igreja faz bem em não permitir que nos esqueçamos disso.





Pausa poética

28 02 2009

RIO DE JANEIRO NEOCONCRETO

por ocasião do desaniversário da Babilônia Tropical

para Estácio, sobrinho de Mem

Aquelas condições de saneamento

Aquele calor, aquele odor

Aquela gente

CLOACA





O Vôo do Marimbondo – Sexta Parte

26 02 2009

O sepultamento do Coronel Ferreira de Castro concorreu com a festa de bodas de João Maquibeto e Odete. Para evitar maiores aborrecimentos, a festa transcorreu durante a noite e todos os convivas, alguns especialmente inspirados pelos licores servidos, acompanharam o féretro do Coronel ao cemitério quando amanheceu. João Maquibeto acompanhou o caixão do pai vestido de noivo e obrigou que sua mulher fizesse o mesmo, o que causou que a enfermiça Odete desfalecesse nos braços do noivo em pleno cemitério, vencido pelo aprazível clima amazônico. Rapidamente levada para casa, Odete foi poupada da saraivada de discursos disparada pelos grandes do lugar à beira da sepultura do Coronel.

O último a falar foi João Maquibeto – mas não se preocupe, desocupado leitor, pois hei de poupá-lo do inteiro teor da elegia proclamada por nosso destemido orador – e falou por cerca de meia hora. O calor sufocante, insetos eventuais, pouca ou nenhuma brisa, esses fatores combinados conferiram ao discurso de João Maquibeto a sensação temporal de mais ou menos quatro horas. As palavras avulsas, quase postas em fila aleatoriamente, louvando as “idiossincrasias paternas que tanto se lhe estavam em si” e destacando “o vigor físico de seu intelecto mental”, combinadas com as condições climáticas citadas entorpeceu gradualmente os cérebros ali presentes, de tal maneira que em menos de cinco minutos a platéia já não ouvia o que dizia João Maquibeto, embora concordasse com tudo e aprovasse tudo. Terminado o discurso, os presentes ainda se mantiveram silenciados por alguns instantes. Pouco a pouco, as flores foram sendo postas sobre o túmulo e, tão logo o padre dispensou a audiência, o cemitério ficou deserto.

Voltando para o velho casarão, João Maquibeto meditava. O pai sempre lhe parecera tão forte e vigoroso. Custava a acreditar que um verdadeiro touro como aquele tombasse subitamente em plena cerimônia de casamento, constrangendo a si mesmo e a todos os presentes. No entanto, assim era e agora João Maquibeto se sentia diferente. A morte do pai lhe havia tirado um filtro do olhar. Ele agora via a cidade de Manaus, apodrecida pela miséria e pela umidade da floresta, e se revoltava com o descaso do governo central. Contemplava o velho casarão e notava que estava em ruínas. Fazia contas e percebia que o dinheiro era curto e que ele precisaria “trabalhar duro” para recuperar alguma coisa com seu honesto trabalho de deputado federal no Rio de Janeiro. Decidiu tomar providências para que o casarão fosse fechado e a mobília em boas condições enviada para a casa que seus procuradores estavam alugando para si na capital federal. Desviou-se para a casa de seu sogro, explicando-lhe a situação e deixando combinado que se hospedaria em sua casa sempre que voltasse ao Amazonas. Aproveitou para confidenciar que pretendia analisar sua viabilidade para uma futura candidatura ao senado ou ao governo do estado.

O sogro, sempre muito impressionado com o genro, concordou entusiasticamente com tudo. Acrescentou que enviaria algum dinheiro sempre que possível, especialmente para que a filha pudesse se manter confortável e atualizada no Rio de Janeiro. Por volta do meio dia, João Maquibeto percebeu que não dormia há muitas horas. Voltou para casa, instruiu a criada e, deixando sua nova esposa repousando solitária no leito nupcial, dormiu até a manhã do dia seguinte na cama que fora de seu falecido pai.

Os passos surdos de Odete no corredor fizeram João Maquibeto despertar. Lentamente, aproveitando cada segundo dessa sensação inexplicável que sentia desde a morte do pai, João Maquibeto desvencilhou-se do mosquiteiro e alcançou a bacia para lavar o rosto. Saiu do quarto e se deparou com a esposa. Odete sorriu. “Pensei que não fosse acordar nunca mais e…” calou-se, tímida. “Dois enterros em três dias? Haja caixão!”, riu-se João Maquibeto com a sensibilidade que lhe era peculiar.

Odete fitava João Maquibeto com um misto de horror e admiração. No fundo de seu coração, a jovem sabia que fizera um mau casamento e que sua vida real não teria a menor possibilidade de melhorar, porque o marido era bronco como o pai e, embora envernizado e pintado com as cores da academia de São Paulo, só sabia emitir palavras vazias e sem sentido. A jovem Odete ocultava grande cultura, adquirida silenciosamente, sem fazer notar aos pais ou aos irmãos. Lera praticamente toda prosa e toda poesia relevante em língua portuguesa e alguns bons romances em francês, língua que aprendera mais profundamente do que supunha sua velha professora. Agora Odete estava ali, casada com um virtual desconhecido, de tez amorenada, um bigodinho ralo e ridículo, e um mandato de deputado federal para começar.

João Maquibeto, ainda embriagado de sono, contemplava a esposa naquele espaçoso corredor. Vestia-se com roupas de dormir, mas com elegância e bom gosto que, supunha ele, certamente haviam sido asseguradas por Dona Felícia, a mãe de Odete, falecida dois anos antes. Os retratos a mostravam como uma mulher elegante, de compleição frágil como a da filha. Aliás, pensava o ainda sonolento João Maquibeto, essa compleição franzina talvez não seja tão franzina assim. Tomado por ímpetos primitivos, João Maquibeto percebeu que ainda precisava consumar seu casamento. Sua expressão facial de mera irrelevância se transmudou em desejo lascivo.

Um terror tumular invadiu a alma de Odete quando ela percebeu que o marido recém-acordado agora despertava também para a lascívia. Percebeu pelo olhar luxurioso que o esposo tramava a consumação do casamento para dali alguns instantes. Poucas coisas aterravam tanto a jovem Odete quanto a possibilidade de ir para a cama com um homem que não fosse romântico ou que, imaginando-se romântico, proferisse as mais mal-educadas grosserias disfarçadas de gentilezas e galanteios. Sentiu-se congelar quando as mãos quentes de João Maquibeto tomaram as suas e a puxaram para junto de si. Sabia que a situação tendia a piorar quando se viu enlaçada pelos braços maiores e mais fortes do marido, que agora apertava o rosto de Odete contra o seu peito.

João Maquibeto procurava a melhor maneira de fazer com que a esposa ficasse à vontade para o que estava prestes a acontecer. Mentalmente, revisou suas aventuras na capital paulista, entre coisinhas e outras mocinhas, e não conseguia imaginar o que poderia ser dito para obter o efeito desejado. Improvisou: “Odete, está amanhecendo porque você é o pequeno sol que ilumina a minha manhã”. Sentiu que a esposa estremeceu e continuou: “Estou muito feliz por você ter aceitado se casar comigo. Você é uma moça muito especial que faz com que eu me sinta um homem muito especial”. Mais uma vez, Odete estremeceu, enojada com a absoluta carência de talento do marido, que se limitava a repetir obviedades e construir frases pseudo-carinhosas denunciadas em sua premeditação pela voz dura do marido.

“Odete, você sabe que ainda precisamos fazer uma coisa muito importante para nós dois…” prosseguiu João Maquibeto, crendo-se no caminho da vitória. “Precisamos consumar nossa união com uma linda…” interrompeu-se. Procurava uma expressão adequada para o ato que ambicionava praticar imediatamente, que não assustasse a moça e não fosse metaforicamente ruim. Odete endureceu em seus braços: “Ah, meu Deus, não permita que ele diga uma barbaridade! Não agora, ou não terei forças para tão árdua tarefa!” João Maquibeto pensava: “Com uma linda… uma linda… consumação!” Odete a muito custo se manteve onde estava: “Consumar uma consumação!” pensava, enquanto procurava recuperar a compostura. “Como esse estúpido tem coragem de dizer isso para a esposa dele no momento em que pretende se deitar com ela?”

Odete pensava tudo isso, mas nada disse. Por isso, inadvertido, João Maquibeto tomou-a com força e a levou para o leito nupcial. Odete nada dizia. Ficou calada enquanto João Maquibeto a despia. Também não disse nada enquanto João Maquibeto se despia. Nada disse dos beijos sem talento que o marido espalhava pelo seu colo. Também achou melhor não reagir quando o marido iniciou a consumação do ato e, embora sentisse agudíssima dor, conseguia se controlar e emitir de tempos em tempos apenas um ruído sufocado que uma tia ensinara antes do casamento. “Às vezes, é preciso mentir aos nosso maridos, querida. Nada grave. Uma mentirinha que nos poupa de muitas dores e constrangimentos secretos. Aos poucos, os gemidos devem se tornar mais rápidos e freqüentes, para que eles fiquem mais animados e terminem mais rápido. Satisfeitos, eles param e nós podemos retomar as nossas vidas. Resistir é, geralmente, inútil quando eles ainda são jovens”.

João Maquibeto desempenhava seus deveres com uma leve paixão, estimulado pela reação favorável da esposa. Temia não agradá-la, motivo pelo qual se esforçava em fazer tudo com doçura, suavidade e muito carinho. Aos poucos, foi se empolgando e notou que a esposa também se empolgava. Saciado, deitou-se ao lado da esposa e se deixou dominar por uma suave sonolência enquanto acariciava os longos cabelos de Odete. Esta procurava cobrir a indesejada nudez, mas sabia que não poderia se vestir até o marido se levantar. Sabia também que aquela “lua-de-mel” poderia durar algumas horas e que precisava ser paciente. Estava dolorida e queria sair dali imediatamente para se lavar, mas o marido a envolvera nos braços e dificilmente a soltaria.

Ao seu lado, semi-acordado, João Maquibeto devaneava. Estava contente por ter uma mulher com um belo corpo, magro, mas atraente e bem proporcionado, com quadris largos que indicam boa capacidade para gerar descendência. Arriscou uma gentileza, para demonstrar que gostava da esposa: “Você está bem, mulher?”, perguntou aos sussurros. Mais uma vez estremecendo, Odete respondeu, de olhos fechados, “Está tudo bem, senhor meu marido”, sua alma queria gritar, torturada pela situação tenebrosa em que se encontrava. “Ótimo”, respondeu João Maquibeto, com a voz um pouco mais forte. Tencionava retomar a atividade em alguns minutos e se pôs a contemplar o corpo da esposa, que inutilmente tentara se cobrir com um lençol amarrotado.

A alvura da pele de Odete se destacava diante da seda avermelhada do jogo de cama. Talvez não fosse uma tarefa tão árdua fazer aquele corpo pálido e macio, ainda fresco de juventude, acolhê-lo para dar à luz os herdeiros da família Ferreira de Castro.





O Vôo do Marimbondo – Quinta Parte

24 02 2009

A notícia da eleição de João Maquibeto à imortalidade regional causou grande alvoroço na família Ferreira de Castro e em toda a sociedade manauara. Muitas felicitações foram enviadas à velha casa, renovando protestos de estima e consideração ao reconhecido autor. A ceia de Natal foi especialmente inspirada pela alegria dos convivas e as palavras de agradecimento de João Maquibeto, no artigo “Dos males o menor”, publicado no dia de ano novo, comoveu a cidade. Com sua prosa claudicante, João Maquibeto parecia lamentar ser vítima da imortalidade, “ser mordido por uma mosca azul” pontificava misturando referências “é mister digno dos mais augustos salamaleques de agracedimento laudatório e brioso”. Aproveitou o parágrafo final para se lançar candidato a deputado federal.

Em pouco tempo, a candidatura de João Maquibeto angariava simpatia dos grupos oligárquicos relevantes, seringalistas, madeireiros e praticamente todo setor extrativista, mormente representado por cavalheiros nascidos em outros estados da federação, fechou com João Maquibeto. Por onde andasse, vila, igarapé ou cidade, João Maquibeto encontrava um poderoso para lhe dar palanque e coagir eleitores. Seus discursos incompreensíveis, repetidos exaustivamente com variações de péssima qualidade, pouco interessavam à população “selvagem”

Contra João Maquibeto, estava o povo, ou seja os silvícolas, os funcionários, os camponeses, os mestiços, enfim, todos aqueles que eram mantidos à margem do sistema eleitoral. Mesmo para esses, João Maquibeto pronunciava seus grandiosos discursos, e fingia solenemente ouvir reivindicações, prometendo as mais absurdas iniciativas em suas declarações de despedida: “Decerto, este igarapé necessita de atendimento ferroviário urgente! E de uma Universidade de Engenharias!” Os disparates eram tantos que um ou outro amazônida se punha a rir e aplaudir efusivamente, sendo bovinamente seguido pelos demais.

Evidentemente, João Maquibeto foi eleito, com uma votação altíssima que nunca foi adequadamente explicada às autoridades judiciais do Rio de Janeiro, quando estas questionaram o número. Aparentemente, algumas pessoas de exacerbado pendor cívico fizeram questão de votar em João Maquibeto duas ou três vezes, como que para confirmar a escolha. Comenta-se que até mesmo o próprio João Maquibeto votara em si mais de uma vez naquela tarde, alegando que precisava tirar uma nova fotografia para um jornal que preparava a notícia de sua vitória.

Entre a eleição e a posse, João Maquibeto desfrutaria de algumas semanas de sossego. Antes de embarcar para o Rio de Janeiro, pretendia se casar e colocar todos os negócios familiares em ordem. Seu pai andava muito eufórico com a vitória, antevendo a redenção econômica da família. Sem deixar o filho decidir nada, providenciou todo o necessário para sua viagem, inclusive a seleção de um grupo de assessores, além de combinar com o pai de Odete os pormenores do casamento. João Maquibeto vagava inutilizado, pela velha casa, cometendo idéias literárias absolutamente chocantes que se animava a pôr no papel tão logo o sol se punha.

A festa de casamento foi realizada com pouco excesso, por causa da crise generalizada que continuava assolando o Amazonas. João Maquibeto ficou surpreso em ouvir a noiva-esposa dizer uma frase com mais de cinco palavras durante a cerimônia, mesmo essa frase tendo sido soprada pelo vigário. Desconfiou que Odete pudesse estar dissimulando uma inteligência oculta que poderia gerar problemas para os planos que seu pai concebera para a carreira na capital federal. Pensava nisso enquanto repetia a tradicional frase de juramento das cerimônias de casamento quando, correndo os olhos por entre os padrinhos, notou que seu pai estava parado em pé, com os olhos semicerrados, um tanto encolhido. Fez sinal ao vizinho, que o cutucou de leve, momento em que o seringalista caiu no chão, morto.

João Maquibeto sobressaltou-se, notando desde o começo que o pai estava morto. Respirou fundo. A morte do Coronel Ferreira de Castro poderia ter interrompido o casamento e sabe-se lá em que condições a cerimônia seria refeita, mas não se deu assim. Pedindo rápida licença ao padre, deu ordem a dois colaboradores que levassem o Coronel para fora e procurassem reanimá-lo como fosse possível. “Tenho certeza que foi apenas um mal-estar. Papai brindará à felicidade do casal ainda hoje. Agora, tratem de reanimá-lo”. Um médico, amigo da família, que viera de Belém para o casamento, acudiu. João Maquibeto retornou ao altar respirando fundo, a cabeça doendo, mas, demonstrando excepecional autocontrole, terminou de casar, beijou friamente sua noiva opaca, saiu calmamente para onde estava o cadáver do pai. Sendo oficialmente informado do passamento, chorou sinceríssimo pranto.

Enquanto molhava de lágrimas a fria e tesa mão do defunto, tinha certeza que o expedito e dinâmico Coronel aprovaria com um sorriso de levantar bigodes a presença de espírito do filho, que preferiu tratar do porvir a dar atenção ao findo. Irônico, talvez preferisse dizer “ao finado”.





O Vôo do Marimbondo – Quarta Parte

14 02 2009

Do porto de Santos até o porto de Manaus, João Maquibeto teve tempo de sobra para pensar na noite assustadora que experimentara nas várzeas de São Paulo. Passava longos períodos acordados em seu camarote, mais incomodado com sua existência que propriamente com os movimentos irregulares da embarcação que o transportava. O vapor fez várias escalas ao longo da viagem, sendo a última em Santarém. Mas João Maquibeto não descia à terra firme. Permanecia imerso em suas divagações, perturbado, assustado, confuso, tentando entender o comportamento das três moças e o motivo pelo qual vira o reflexo do marimbondo em seu copo de conhaque naquela noite.

Aos poucos, como que por osmose, João Maquibeto relacionou logicamente uma e outra coisa, concluindo que o marimbondo e as três coisinhas estavam atendendo a um mesmo princípio. Aparentemente, João Maquibeto estabelecera um vínculo com o sobrenatural ao se relacionar com as três jovens, e também estabelecera um vínculo ao ser picado pelo marimbondo, o que talvez explicasse sua excepcional presença de espírito na avaliação oral daquela manhã de janeiro. Medroso, João Maquibeto aferrou-se em rezas, abrindo sua até então sempre fechada Bíblia à esmo como que esperando que do Livro saísse uma resposta automática para todos os seus problemas.

Chegou a Manaus com um aspecto ruim, mais magro, abatido, grandes olheiras, ressaltando a expressão meio abobada de seu rosto. O pai fingiu não reconhecê-lo para poder desancar com maior liberdade o estado deplorável em que voltara o filho. “Até parece que foste picado por um bicho venenoso, Jão!”, pontificava o pai, com energia. “Vais comer mais vezes ao dia ou terei que levar-te ao médico, em Belém!” E Maquibeto se viu obrigado a comer os mais variados pratos amazônicos, boa parte deles temperos expecionalmente acentuados, o que lhe causou grandes dificuldades fisiológicas durante suas primeiras semanas em Manaus.

Enquanto seu pai o supunha convalescente, apenas indiretamente participa o filho da situação dos negócios da família, mas tão logo o jovem João Maquibeto lhe pareceu mais corado, o Coronel Ferreira de Castro concluiu haver chegado o momento de cobrar o menino. O estado do Amazonas vivenciava um notável empobrecimento desde a vertiginosa queda do preço da borracha nos mercados internacionais. Com a família de João Maquibeto não ocorrera de maneira diferente, motivo pelo qual o pai precisava que o filho trabalhasse. Seria igualmente conveniente que João Maquibeto se casasse o quanto antes.

Questionando o pai sobre as possibilidades de emprego no serviço público local, foi prontamente desencorajado. Já fazia alguns anos que os pagamentos estavam extremamente contingenciados, havendo meses em que os funcionários públicos nada recebiam. O Amazonas vivenciava uma total paralisia econômica, mas o velho coronel Ferreira de Castro tinha um plano perfeito para Maquibeto. Usaria uma parcela considerável da dilapidada fortuna que conseguira preservar para eleger o filho deputado federal nas eleições que viriam em 1922. Além disso, tencionava casar Maquibeto com a filha de um poderoso exportador de madeiras e com isso manter o prestígio da família na região.

Maquibeto concordou sem grandes discordâncias. Os mistérios que assolavam à bordo continuavam a assolá-lo em casa. Dali alguns dias, abriu sua firma de advocacia e começou com moderado sucesso sua carreira de advogado. Na mesma semana, conheceu a tal filha do poderoso exportador de madeiras. Odete. Dois anos mais jovem, sem nenhum atrativo, cabelos negros, pele branca, corada, magra, quieta. “Uma nulidade” disse João Maquibeto ao pai quando voltaram do encontro. “Sim! Não é maravilhoso que esse tipo de mulher ainda esteja solteira? Eu lhe digo, meu filho, case com essa criatura, faça-lhe três ou quatro filhos, observe sua juventude se desfazer, nomeia-a governanta de sua casa e vá cuidar dos seus prazeres e dos seus negócios! É exatamente por isso que eu a escolhi para você: para que sua esposa nunca seja um problema…”

João Maquibeto observava boquiaberto a manifestação pragmática de sinceridade. Concordou. Odete não era filha única, tinha dois irmãos mais velhos que ajudavam o pai no negócio das madeiras, mas era a cabeça de ponte necessária para que ele obtivesse o apoio do setor madeireiro, um dos poucos setores que ainda movimentavam a combalida economia amazonense. Tão logo foi celebrado o noivado, o coronel Ferreira de Castro participou ao pai da noiva, Doutor Licurgo, a intenção de fazer do filho deputado federal. Marionete, João Maquibeto concordou.

Parte do plano visava a popularização do nome de João Maquibeto entre a elite pensante que ainda permanecia em Manaus. Articulou-se a criação de uma coluna semanal em uma gazeta de grande circulação, na qual João Maquibeto escreveria sobre o que bem entendesse da maneira que bem entendesse. João Maquibeto ora protestava a necessidade de desenvolver a floresta, ora filosofava sobre a conquista do Acre, ora fazia versos. No que quer que escrevesse, João Maquibeto repetia o estilo que o consagrara em sua formatura universitária: tautologias, citações erradas em línguas desconhecidas, ironias de péssimo gosto, repetições exaustivas, uso indevido da dramaticidade, mau gosto e a curiosa capacidade de deixar as idéias soltas pelo papel, sem qualquer relacionamento lógico entre elas.

Como exemplo notável dessa verve especialíssima, destaca-se uma coluna que João Maquibeto escreveu para criticar o governador do Amazonas. Com o título esdrúxulo de “Crítica do Elogio”, o texto contava com quatro parágrafos: o primeiro agredia o governador com palavras duríssimas por não ter pago os salários não se sabe exatamente de que setor do funcionalismo; o segundo falava da beleza da vitória-régia em flor, enaltecendo a qualidade das Madeiras Pau-Ferro, de propriedade de seu sogro (as quais não eram comercializadas em Manaus); o terceiro elogiava a coragem do governador de tomar medidas impopulares com o fito de preservar o tesouro estadual, reclamando o governado federal a necessária assistência ao Amazonas; no quarto parágrafo, atribuía a Cícero uma frase de Camões (“Oh, glória de mandar, oh, vã cobiça!, como dizia Cícero em sua Catilinária”) e avançava novamente com violentos ataques pessoais ao senhor governador, por ele chamado de papalvo e de cretino, acusando-o de expôr o Amazonas à galhofa internacional com sua inadimplência.

O mais surpreendente é que, com opiniões contraditórias revestidas de um verniz cultural inacessível a boa parte dos locais, João Maquibeto foi logo se tornando uma referência não-ideológico, com a qual todos conseguiam se identificar, mesmo os mais humildes. Essa facilidade com que João Maquibeto juntava as maiores barbaridades em um único discurso tornavam-no extremamente divertido. Qualquer pessoa tinha a certeza de que entendia o que João Maquibeto estava dizendo e porque dizia as coisas daquela maneira. A simples falta de talento se transformou em uma técnica genial de conquista de espíritos.

Com o sucesso, sua coluna semanal em três meses precisou ser diária e passou a ser distribuída com uma semana de atraso para jornais em Rio Branco, Santarém, Tefé e Belém. Para cada dia da semana, João Maquibeto consagrava um temário específico: às segundas, costumava falar de religião, geralmente retrabalhando à sua maneira o sermão paroquial que ouvira na missa de domingo; às terças, falava de economia, basicamente lamentando a situação difícil do Amazonas; às quartas, falava de política, mencionando de maneiras variadas a honra e a dignidade do senhor presidente da república; às quintas, dizia o que faria pelo Amazonas se permitissem, momento em que grandiloqüava em seu estilo brejeiro, prometendo ligar Manaus ao Rio de Janeiro por trem e aumentar o preço da borracha; às sextas, falava de cultural regional, geralmente fundindo duas ou três lendas amazônicas em uma fábula tosca sem pé nem cabeça; aos sábados, respondia uma carta; aos domingos, publicava um poema.

Em um domingo de outubro, publicou um descarado e grosseiro plágio-tradução do poema O Corvo de Poe, substituindo o corvo do poema por uma vespa faiscante, o busto de Palas por um retrato de Odete e a saudade de Lenore pela saudade de Manaus. Chamou-o de “A vespa pousada sobre o retrato faz lembrar a minha terra”. O poema era muito ruim, motivo pelo qual apresentamos aqui apenas a melhor parte, ou talvez a menos inapropriada à leitura, que é a última estrofe. Atentai para a métrica e para o rigor poético:

E a vespa endiabrada está sentada, está sentada
Sobre a bela fotografia de Odete na parede da janela
E suas asas agitadas como as árvores na estrada
E a noite enluarada lança as sombras da procela
E minh’alma aprisionada nessas sombras da procela
………………..Será livre – sempre mais!

Datava de 13 de maio de 1889, o que não fazia o menor sentido pois fora publicado em outubro de 1920. Um pouco antes do Natal, João Maquibeto recebeu carta informando que fora eleito para a Academia Amazonense de Letras.





O Vôo do Marimbondo – Terceira Parte

11 02 2009

Graduado, João Maquibeto imediatamente tomou todas as providências necessárias para retornar ao Amazonas e à casa de seu pai. O velho, é verdade, prometera vir para a colação de grau e acompanhar o filho único de volta para o Amazonas, mas acabou retido por problemas de natureza política e econômica. Na data esperada para a chegada, João Maquibeto recebeu apenas uma carta que expunha, na maneira direta e pouco refinada do pai, os pormenores da ausência e dava instruções para a volta do jovem à cidade de Manaus.

Prendia-o a São Paulo apenas uma coisinha. Ou melhor, três coisinhas. João Maquibeto era um jovem bastante dado a amizades com as camadas mais insociáveis do baixo meretrício paulistano. Nos meses de esplendor, freqüentara salões de mais alta classe. As reviravoltas financeiras, todavia, promoveram uma reestruturação de seus padrões estéticos e – perdoai a vulgaridade – higiênicos. Manteve por longos anos uma relação descompromissada com três sacerdotisas de Vênus instaladas nos baixios da Bela Vista, em casa de Madame Charlotte. Maninha, Ritinha e Mocinha eram as suas “coisinhas” (assim ele se referia a elas, sempre no plural e no diminutivo). Três jovens mulatas de bons atributos físicos, apesar de maus dentes, um forte odor de perfume vencido e exagerado apego ao dinheiro.

A volta para Manaus obrigava João Maquibeto a interromper o tropical idílio carnavalesco em que estivera envolvido com suas coisinhas. Não se sentia culpado ou constrangido por deixá-las, mas sentia um desejo irresistível de ir se despedir de maneira apropriada, dando por findas as suas peripécias de estudante. Duas noites antes de descer para Santos, João Maquibeto saiu furtivamente da pensão em que vivia e se dirigiu à casa de Madame Charlotte. O servente o recebeu, advertindo que não haveria expediente naquela noite. Indagando os motivos, João Maquibeto foi informado que as suas três coisinhas e as demais outras virtuoses do lugar haviam ido a um folguedo popular por ali próximo. Tomando conhecimento de seu paradeiro, João Maquibeto se dirigiu ao local indicado pelo servente, disposto a ter com suas coisinhas.

Cruzando alguns terrenos ermos, João Maquibeto foi baixando para a várzea do Tamanduateí e logo começou a ouvir  repiques distantes de uma grande batucada. Cuidando para não elamear as calças, João Maquibeto logo se deparou com um grande grupo de mulheres e homens, quase todos pretos ou mulatos, dançando, cantando e bebendo naquilo que qualquer pensador da época qualificaria como festim pagão. Todos trajavam branco e traziam contas coloridas no pescoço, e andavam descalços e diziam frases em línguas que João Maquibeto não conhecia.

Suas três coisinhas também estavam ali, juntas, cada uma delas com suas contas vermelhas e pretas intercaladas. Dançavam na companhia de um negro de cabeça raspada, que fazia reverências a todo momento. “Minhas coisinhas!” chamou João Maquibeto. As três, que estavam de costas, se viraram e sorriram: “João do Norte!” Sentindo-se convidado, João Maquibeto se aproximou. As três fizeram sinais para que o negro reverente se afastasse e prosseguiram falando em uníssono com João Maquibeto, em um tom um tanto sobrenatural que o deixou incomodado.

“Ieu sabia que vosmecê vinha vê nóis. Sentiu saudade, João do Norte?”, perguntaram as três jovens com doçura.

“Um pouco, minhas coisinhas… mas vim dizer que vou partir e…”

“Vosmecê vai simbora, João do Norte? Vai ansim despois de tudo que ieu fez por vosmecê?”, e aqui as três jovens pareciam rosnar.

“Ah, minhas coisinhas, não sejam cruéis. Toda separação é dolorosa, mas eu preciso retornar para a minha terra… meu pai… eu preciso…”

“João do Norte vai vortá pro Norte! João do Norte vai vortá pro Norte! Ieu já sabia que vosmecê ia vortá, João do Norte! João do Norte, ieu gostô muito de vosmecê e ieu num vai impedí vosmecê de í pra vê seu véio pai. Ieu vê seu véio pai e ieu sabe que vosmecê vai vê ele só um poco. Mas ieu sabe que lá na Grande Floresta vosmecê vai si crescê num grande gigante! Sarve, João do Norte! Bacharé adevogado! Sarve, João do Norte! Gigante imortá! Sarve, João do Norte! Vosmecê vai sê um vice-rei!”

João Maquibeto deu dois passos para trás. Não conseguia entender muito bem a mensagem das suas coisinhas, que pareciam oscilar entre o delírio eufórico e uma sufocante angústia.

“João do Norte! Orixá diz pra vosmecê cuidá! Vosmecê tá mordido, João do Norte! Orixá diz pra se cuidá! João do Norte num contô que tá mordido, Maninha! Num conto, iscondeu di mim!…” e aqui cada uma começou a discutir com a outra, aparentemente horrorizadas com o fato de João Maquibeto estar “mordido”, tornando o alarido uma gritaria quase insuportável que chamou a atenção dos convivas daquele sabbath iorubá. João Maquibeto não compreendia mais o que diziam: “Quem é Orixá, minhas coisinhas? Acalmem-se que vocês estão me assustando”, arriscou.

A resposta veio em triplo canto-gritado: “João do Norte! João do Norte! Semeia e coierá! Tá mordido, tá mordido! Semeia e coierá! O fogo só se apaga se o seu João dexá! Iá iá iá! Coierá, coierá e bem véio morrerá! Iá iá iá! Viverá, viverá e nunca cansará! Iá iá iá! O fogo só se apaga se o seu João dexá! Iá iá iá! Onde é que isso vai dá? Iá iá iá! Vô vivê pra í oiá!”

Foi então que pela primeira vez ocorreu a João Maquibeto que suas três coisinhas estavam em algum tipo de transe induzido pela mística africana. Saiu em meio à gritaria, e começou a voltar para casa. Os gritos de “iá iá iá” ainda o seguiram por alguma distância, de maneira que ele preferiu demorar-se em um copo de coragem, aliás, conhaque, para tirar a perturbadora imagem das coisinhas possuídas gritando com ele. No reflexo do copo, pareceu ver novamente aquela estranha criaturinha de fogo que lhe aparecera em uma noite longínqua de grande calor. “Então não era um delírio… você existe, mamangaba!”, murmurou, entornando todo o conhaque na garganta.

Virou-se, mas era apenas um velho lampião bruxuleando em um canto.